há domingos assim
há domingos em que o nevoeiro poisa múltiplos pés miúdos no mar
e os múltiplos pés miúdos que poisa já de si no mar
se vão ainda desvanecendo multiplicando minuto a minuto
e o nevoeiro é uma vasta mão no mar e algumas casas brancas da vila ao longe cada vez mais longe
que há pouco na névoa eram ainda mais brancas alvejavam visivelmente mais
se perdem também agora na imensa superfície indecisa levemente móvel
infinitamente divisível boiando no espaço dissolvendo tudo até mesmo o mar
não há muito ainda se viam os homens simplificados em vultos jogando talvez ao chinquilho junto do forte
havia o ruído da ronca agora estou só aqui nessa ponta de terra
nessa ponta de tudo com os pés nesta desmedida vontade de partir
mas não para aqui ou para ali nem para paisagens sabidas saídas das páginas de romances
perdidos nos dias de infância nem para cidades distantes onde vivi talvez e oiça vozes de amigos
e devo ter-me alguns dias sentido bem em respirar mais fundo num ou noutro local
partir não para aqui ou para ali mas apenas partir afastar-me daqui
sentir-me ir estando mais longe cada vez daqui sem chegar a sítio nenhum
caminhar descoberto ao longo dos primeiros caminhos da chuva
havia aqui roupa estendida havia aqui crianças completamente absortas nas suas vidas
detentoras de um nome ou que quando eu dizia alto um nome logo nasciam e eram coisas perto de mim
coisas muito rentes coisas mesmo à mão
havia uma casa perto da praia a que eu às vezes chamava minha
onde eu dormia onde eu espalhava ou espargia os meus inúmeros papeis escritos
e quando eu dizia a minha casa ela como que logo sobressaia
e tinha várias divisões coisas em certos sítios alguns truques determinados segredos
havia há pouco ainda lixo à porta agora há apenas a imensidade imersa no nevoeiro
há ou estar aqui desamparado na ponta da terra na ponta de tudo
como se porventura um dia eu houvesse perdido alguma coisa
ou fosse por estradas de muitas curvas por onde ainda não há muito eu trazia mulheres pela mão
ou algum amigo me vinha no timbre inconfundível da sua voz
sei então que o sítio das minhas coisas é rente a árvores de muitas folhas amareladas
algumas delas caídas imitando alguns dos quadros de seurat quadros do pontilhismo
é perto de certas vozes ouvidas a medo em ligares ermos e verdes minhas vozes intimæ
dotadas decerto da timidez das coisas que principiam mas agora ainda
audíveis nalgumas palavras em frases entoadas de certa forma que de repente
evocadas me fazem chegar o mar longe agora mas não o mar essa coisa do verão
quando um gesto da mão o alisa e ele tem o brilho do dorso das sardinhas
mas o mar visível de súbito de um lado e doutro do cabo carvoeiro no nevoeiro mas um nevoeiro
então muito leve nevoeiro apenas bastante para esfumar alguns contornos
e deixar o sol rasante da tarde ferir-nos atingir-nos cá muito fundo
como as últimas flechas do dia condenado disparadas talvez pelo mar
olho alguns domingos o mar e mesmo que o olhe talvez através de vidros decapitado por uma janela
reparo num ligeiro sobressalto da sua superfície supremamente sensível
e penso que valeu afinal a pena eu ter nascido e ser mexido e trazido até aqui
porque pressinto que o mar é um pouco diferente só pelo facto de eu o olhar
o nevoeiro nesses domingos é como um vasto lençol no qual eu recorto coisas extintas há muito
algumas figuras baixas pouco mais altas que a solidão de setembro
que a surpreendente surpresa de certas tardes com que setembro passa por nós e nos olha
algumas figuras passadas ou imaginadas todas elas breves como manhãs
ou como a idade da morte de certos poetas por certo os poetas mais certos
o mar é humano e o seu rosto ao alto é redondo com uma baía
e ele tem gestos trejeitos só de crianças gestos e trejeitos depois idos perdidos com a infância
tem uma voz bastante recôndida e ao longe há lumes ou luzes colunas de fogo ao vento
o mínimo de fogo para eu ver que há vento e ele ser como vento no vento
pedir como que desculpa por soprar que é afinal a sua maneira de ser
certos domingos abrem-se logo bastante cedo como areais e pensamos
que o domingo é o dia do espaço e movemo-nos nele devagar
evitando os menores ruídos dissimulando os próprios passos nos areais
onde às vezes de súbito a pegar por exemplo na cozinha
numa caneca de barro do bombarral com uma pintinha central azul
e cinco pintas brancas em volta cinco pintas talvez cinco pétalas
sentimos a súbita falta de alguém talvez uma mãe alguma mulher
um simples ombro dissimulada colina no areal que o vento varre
e ocupa como um espaço amplo onde instintivamente respiramos fundo
olhamos sempre para longe mesmo coisas perto como se olhássemos do alto de miradouros
e pensamos com uma largueza onde há gestos rasgados e generosos
e tudo é naturalmente horizontal sem coisas nenhumas por trás de coisas
sim há domingos que nos fazem pensar que há domingos
e não porque haja sinos mais ou menos gente fatos coloridos e novos
mas talvez porque há sol ou toldos ou vultos leves toldados
coisas que nos levam a ser de uma forma ligeiramente diferente
só por ser domingo e pensarmos que esse dia é domingo
nesses domingos quando recolho a roupa e procuro a penumbra da casa
e não sei de cidades nem do ruído nem de repente profundamente em mim nasce
o pavor de assuntos a resolver ter de entrar em casas com muitos homens e secretárias
e muitos relógios muitos telefones terraços com plantas e cadeiras de ferro
não para alguém se sentar mas só para ver através de largas portas envidraçadas
nesses domingos dias diferentes dos outros dias talvez só por serem domingos
leio deitado umas poucas palavras do punho de alguma mulher amada
e essas palavras recolho-as nalgum lugar que há em mim para elas. São muito poucas palavras
caberiam nalgum pequeno postal mas esse postal encheria uma pasta
dilataria visivelmente a pasta mais espaçosa onde eu por acaso o levasse
e a pasta então pesaria chamaria a atenção das pessoas mas o meu pavor passaria
estaria em paz com a vida puxaria sobre mim o lençol pensaria que a paz
é branca e nos pode um dia cobrir para sempre como um branco lençol
não pensaria sequer por palavras ficaria apenas de costas deitado
com os olhos abertos sem nada ver sentindo-me imensamente bem
como se a vida fosse sentir-me sempre assim bem permanecer imóvel assim
sem palavras mesmo roladas na boca dolorosamente libertas do tempo
sem quase pensar em nada sem sequer saber que me sinto bem
como mero ser vivo como essas árvores onde muitas folhas findo o inverno se reúnem anualmente
e depois ou caem ou tremem ou nos fazem sentir que certas coisas acabam
e que as vozes alheias que se levantam em nós como um apelo como um principio
emudecem também talvez um domingo ao lado das poucas palavras amadas
onde tudo notamos até a menor mais perfeita correcção de umas letra
sem sentir que nem sempre havemos de ter abertos os olhos assim
como uma forma de vida que é discreto silêncio ou paz ou alvo lençol
sim há domingos assim e nada nem mesmo a noite nem mesmo
a noite que sabemos decerto haver por detrás da noite que nos há-de velar domingos assim
ruy belo “ha domingos assim”
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hádomingosassim.hádomingos.assim.há.domingos.
